quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O CACHORRO LOUCO DO TRUMP É A PERSONALIDADE DO ANO



Aluízio Amorim

O establishment e toda a grande mídia continuam inconsoláveis com a vitória de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos. É o caso da ex-importante revista Time que restou, como suas congêneres, como peça de um museu que conta a história da imprensa depois do advento da internet, das redes sociais, dos blogs e sites independenteds. 

Sobreviveu, no entanto, o bastante para eleger Donald Trump como a personalidade do ano. No miolo da publicação há uma enorme matéria, conforme se pode conferir em seu site que serve, no mais, para consolar Hillary Clinton, o establishment e os ditos “liberals”, eufemismo construído pelos próprios comunistas norte-americanos para servir de esconderijo ideológico, haja vista a histórica repulsa da maioria dos cidadãos americanos ao marxismo e suas variantes. O Partido Democrata passou ser uma espécie de porto seguro para essa gentalha esquerdista que acabou sendo massacrada por Donald Trump.

A reportagem inteira da revista Time sobre Trump serve mais como um consolo para os perdedores quando tenta, de todas as formas, reforçar a narrativa furada de que a vitória de Donald Trump foi algo surpreendente, de virada. Afinal, a grande mídia e os famosos institutos de pesquisa são os grandes perdedores junto com Hillary Clinton e seus sequazes, já que foram os artífices do grande engodo. Uma mentira repetida ad nauseam nem sempre se transforma numa verdade absoluta.
Nunca se verificou ao longo da história política mundial a uniformidade total da grande imprensa em defesa de um candidato como se viu nessa última eleição presidencial americana. “Toda unanimidade é burra”, já dizia o famoso jornalista, escritor e dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues.

Resta portanto a choradeira do esquerdismo bundalelê. E no rol das celebridades listadas pela Times para eleger a personalidade do ano constava - pasmem - Hillary Clinton e Vladmir Putin. Para não pegar muito mal, Times diz ter incluído o político conservador inglês Nigel Farage, que foi o grande líder da campanha do Brexit, que culminou com o referendum vitorioso pela saída do Reino Unido da deletéria União Europeia.

Restou para a Time dizer a verdade: DONALD TRUMP LUTOU SOZINHO TENDO CONTRA SI UMA FABULOSA MÁQUINA DESTINADA A MOER SUA REPUTAÇÃO. É, PORTANTO, MUITO MAIS DO QUE A PERSONALIDADE DO ANO,  É UM VERDADEIRO HERÓI NO SENTIDO ESTRITO DA PALAVRA.  TODAVIA ISSO JAMAIS SERÁ ADMITIDO PELA TIME.

E ainda tem um detalhe especial: a eleição presidencial deste ano nos Estados Unidos entrará com certeza para a história como um marco de salvação da Civilização Ocidental. E, como não poderia deixar de ser, a revista Veja, uma cópia mambembe da Times, repercutiu a escolha de Trump como a personalidade do ano. Cuidou no entanto em seu texto de fazer rodar a maquininha da guerrilha cultural politicamente correta ao destacar uma frase do chefe do bureau da Times em New York, Michael Scherer, na apresentação da reportagem: : “... a campanha eleitoral de Trump foi distinta das demais na última geração, já que o republicano evitou falar sobre um futuro brilhante e de união, mas sim exacerbou as diferenças atuais, “inspirando novos níveis de ódio e medo dentro de seu país”.

Níveis de ódio e medo? Estão aí as duas palavras chaves da guerra cultural. Quem entender isso, como já disse aqui no blog, mata a charada e não gastará mais um tostão comprando, assinando e lendo essas porcarias destinadas à lavagem cerebral. Igualmente as pessoas inteligentes já não vêem mais televisão. Ou você caro leitor ainda assiste, por exemplo, o tal Manhattan Conection?

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

EM MENOS DE 100 DIAS A DEMOCRACIA BRASILEIRA CHUTOU NA BUNDA DE TRÊS PRESIDENTES SAFADOS
























Magno Martins

Em menos de cem dias, o Brasil perdeu a presidente da República e os presidentes da Câmara e Senado. Tudo começou em 31 de agosto, quando o Senado Federal foi decidiu, por 61 votos a 20, a condenar Dilma Rousseff pelo crime de responsabilidade e retirar o seu mandato de presidente da República. A petista foi punida pela edição de três decretos de crédito suplementar, sem autorização legislativa, e por atrasos no repasse de subvenções do Plano Safra ao Banco do Brasil, em desacordo com leis orçamentárias e fiscais Menos de duas semanas depois, em 12 de setembro, foi a vez de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que teve o mandato cassado sob a acusação de ter mentido ao afirmar que não possuía contas no exterior em depoimento na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Petrobras no ano passado. O então presidente da Câmara --que já estava afastado do cargo desde maio-- perdeu o mandato, o foro privilegiado e fica inelegível até 2027. Cunha ainda viria a ser preso no dia 19 de outubro, seis dias depois de se tornar réu na Operação Lava Jato. E na última segunda-feira, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Marco Aurélio Mello decidiu afastar o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) da presidência do Senado. A decisão mantém o mandato do senador. A decisão do ministro Marco Aurélio em atende a ação movida pelo partido Rede Sustentabilidade. O argumento é o de que o peemedebista não poderia permanecer na linha de substituição do presidente da República sendo réu em processo criminal. Na semana passada, o STF decidiu abrir processo e transformar Renan em réu pelo crime de peculato (desvio de dinheiro público). A decisão pelo afastamento é liminar, ou seja, foi concedida numa primeira análise do processo pelo ministro, mas ainda precisa ser confirmada em julgamento pelos 11 ministros do Supremo. Ainda não há previsão de quando o processo será julgado em definitivo. O mandato de Renan à frente da presidência terminaria em fevereiro, mas, na prática, ele exerceria o comando do Senado apenas até o final deste mês, quando o Congresso deve entrar em recesso. O afastamento do senador pode causar instabilidade política para a aprovação de projetos importantes para o Governo do presidente Michel Temer (PMDB). - A manchete e a imagem não fazem parte do texto original - 

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O CANGACEIRO DE ALAGOAS FOI PEGO NUMA EMBOSCADA, POR TRÁS DA MOITA, À TRAIÇÃO... PHUDEU-SE!!!





O SENADO ESTÁ SOB NOVA DIREÇÃO, UM FILHO DA PUTA DO PT É QUEM VAI ASSUMIR O COMANDO. POIS BEM!!! A ação anterior da Rede, para impedir que réu de processo penal possa integrar a linha sucessória, já foi  julgada pelo Supremo, por 6 votos a 1, interrompida com pedido de vista feito por Toffoli, que já votará contra e tinha sido impiedosamente derrotado. Seu pedido de vista em nada interfere no resultado. Foi por isso que Marco Aurélio Mello nem titubeou foi logo afastando Renan. É óbvio que o plenário vai confirmar a liminar e fim de papo para Renan, sem possibilidade de reverter em recurso.TCHAU QUERIDO!!!

Manoel Ventura

O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o afastamento de Renan Calheiros (PMDB-AL) da presidência do Senado. A decisão foi tomada com base no pedido feito pelo partido Rede Sustentabilidade, nesta segunda-feira. O ministro concordou com os argumentos da Rede de que, como Renan virou réu no STF, ele não pode continuar no comando do Senado, em razão de estar na linha sucessória da Presidência da República. A liminar precisará ser referendada pelo plenário do STF.

Na decisão, o ministro explicou que não afastou Renan do mandato, apenas da Presidência do Senado. Renan planejava colocar para votação no plenário nesta terça-feira o projeto sobre abuso de autoridade, bastante questionado por juízes e membros do Ministério Público.

“Defiro a liminar pleiteada. Faço-o para afastar não do exercício do mandato de Senador, outorgado pelo povo alagoano, mas do cargo de Presidente do Senado o senador Renan Calheiros. Com a urgência que o caso requer, deem cumprimento, por mandado, sob as penas da Lei, a esta decisão”.

LINHA SUCESSÓRIA – Pela regra constitucional, na ausência do presidente da República e do vice, os substitutos são os presidentes da Câmara, do Senado e do STF, nessa ordem. Na semana passada, o tribunal aceitou denúncia contra Renan e ele foi transformado em réu em uma ação penal por peculato. A íntegra da decisão ainda não foi divulgada.

“Com o recebimento da denúncia, passou a existir impedimento incontornável para a permanência do referido Senador na Presidência do Senado Federal, de acordo com aorientação já externada pela maioria dos ministros do STF”, afirmou o partido no pedido.

Em novembro, o STF começou a julgar ação apresentada pela própria Rede que questiona se um réu pode estar na linha sucessória da Presidência. Cinco ministros do Supremo seguiram à época o entendimento de Marco Aurélio, relator da ação, de que um parlamentar que é alvo de ação penal não pode ser presidente da Câmara ou presidente do Senado porque é inerente ao cargo deles eventualmente ter que assumir a Presidência. O julgamento não foi concluído porque o ministro Dias Toffoli pediu vista e não há data para ser retomado.

PECULATO – O STF abriu na semana passada ação penal para investigar Renan por peculato — ou seja, desviar bem público em proveito particular. O processo apura se a empreiteira Mendes Junior pagou pensão alimentícia à jornalista Mônica Veloso, com quem o parlamentar tem uma filha.

O escândalo eclodiu em 2007 e, na época, levou à renúncia de Renan da presidência do Senado. As investigações revelaram que o parlamentar não tinha dinheiro suficiente para pagar a pensão. Renan teria apresentado documentos falsos para comprovar que tinha condições de arcar com a despesa. Além desse caso, o peemedebista responde a outros onze inquéritos no STF, sendo oito decorrentes da Operação Lava-Jato.

Dos três crimes pelos quais Renan foi denunciado, os ministros foram unânimes na decisão de arquivar um deles por prescrição. Não há mais como punir o parlamentar por falsidade ideológica de documento particular, porque já se passaram muitos anos dos fatos. Em relação ao crime de falsidade ideológica de documento público, o STF declarou, por oito votos a três, que a denúncia explicou exatamente qual documento tinha sido fraudado. Portanto, não haveria motivo mínimo para prosseguir com a investigação.



segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O SEBOSO DE CAETÉS E A VACA TERRORISTA PREFEREM CHORAR FIDEL

Lula e Dilma agitam bandeiras de Cuba, ao lado do ditador Raúl Castro, para homenagear Fidel Castro, enquanto os brasileiros se emocionavam com os mortos da tragédia de Chapecó.(Foto: Ricardo Stuckert)




Não há nada mais ridículo do que ver esses corruptos, Dilma e Lula, com bandeirinhas de Cuba homenageando um bandido sanguinário como o Fidel Castro. Enquanto o povo brasileiro luta contra a cambada de corruptos do congresso que querem acabar com a Lava-jato, eles estão aplaudindo um bandido que executou dezenas de milhares de Cubanos. Tem de botar ambos na cadeia. Tem de pegar as cinzas do Fidel e enfiar no rabo da Dilma e do Lula. Aliás, as cinzas do assassino Fidel Castro,  tinham quer ser lançadas num latão de lixo ou então nas privadas do SEBOSO DE CAETÉS ou no cagador DA VACA TERRORISTA DA DILMA...

Claúdio Humberto

Os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff ignoraram completamente a tragédia que vitimou todo o time e comissão técnica do Chapecoense, na semana passada, assim como as cerimônias de chegada dos corpos e de sepultamento, porque preferiram estar presentes ao funeral do ex-ditador cubano Fidel Castro. Lula e Dilma foram a Santiago de Cuba para participar do evento que marcou a chegada das cinzas do ex-ditador no cemitério Santa Ifigênia. A urna de cedro coberta com uma bandeira cubana saiu de Havana quarta-feira (30) e percorreram quase mil quilômetros até chegar ao destino. O cemitério, considerado o "berço da revolução", ficou fechado, não sendo permitida a aproximação da população nem o registro de imagens até a chegada das autoridades e seus convidados. O trajeto das cinzas pela ilha incluiu os municípios de Matanzas, Cienfuegos e Sancti Spiritus, por exemplo, que foram visitados por Fidel e seu exército rebelde em janeiro de 1959, enquanto eles iam para Havana na famosa "Caravana da Liberdade", percurso feito pelo ex-presidente depois de ter ganho a guerra contra Fulgencio Batista. O cortejo da urna de Fidel refaz, após 57 anos, os passos dessa caravana. 



ÚLTIMA CRÔNICA DO POETA GULLAR, QUE MORREU ONTEM AS 86 ANOS


Sob o título “Para que alguém necessita ter a sua disposição milhões de dólares?”, o último texto de Ferreira Gullar, que ultimamente passou a ser considerado de direita pelos petistas, é um primor de bom senso e amadurecimento político. Coloca as coisas em seus devidos lugares, mostra que o equilíbrio está no meio. É justamente a tese que defendo. Sou comunista, mas não me interesso mais por ideologias. Gostaria apenas que os governantes fizessem as coisas certas e os milionários lembrassem que a vida passa rápido, logo todos iremos morrer e seria muito mais interessante se deixássemos aqui um mundo melhor, sem o consumismo vigente que está destruindo a natureza. E tudo isso para quê? Como responderia Miguel de Cervantes, há 500 anos: “PARA NADA” - Carlos Newton - 


Ferreira Gullar
Folha
Frequentemente me pergunto por que certas pessoas indiscutivelmente inteligentes insistem em manter atitudes políticas indefensáveis, já que, na realidade, não existem mais. Estou evidentemente me referindo aos que adotaram a ideologia marxista, que, de uma maneira ou de outra, militaram em partidos de esquerda, fosse no Partido Comunista, fosse em organizações surgidas por inspiração da Revolução Cubana.
Não tenho dúvida alguma em afirmar que Karl Marx foi uma personalidade excepcional, tanto por sua inteligência como por sua generosidade, pois dedicou a sua vida à luta por um mundo menos injusto.
Graças a homens como ele, as relações de capital e trabalho –que, na época, eram simplesmente selvagens– mudaram, alcançado as conquistas que as caracterizam hoje. Marx contribuiu para mudar a sociedade humana, muito embora o seu sonho da sociedade proletária se tenha frustrado.
Nisso ele errou, e nós, que acreditávamos em suas ideias, erramos com ele. Isso não significa, porém, que o sonho da sociedade igualitária tenha que ser sepultado. Continua vivo e o que importa é encontrar outros meios de torná-lo realidade. Já alguns países têm avançado nessa direção.
DOGMAS ERRADOS – Mas, para que esse avanço prossiga é necessário reconhecer que o sonho marxista estava errado, ainda que bem-intencionado. Se insistirmos nos dogmas ditos revolucionários – como a luta de classes e a demonização da iniciativa privada –, não sairemos do impasse que inviabilizou o regime comunista onde ele se implantou.
Há que reconhecer que, se sem o trabalhador não se produz riqueza, sem o empreendedor também não. Entregar o destino da economia a meia dúzia de burocratas foi um dos equívocos que levaram ao fracasso os regimes comunistas onde ele se implantou.
Tampouco pode-se negar que o regime capitalista se move essencialmente pela exploração do trabalho e pela acumulação do lucro. A ambição desvairada pelo lucro é o mal do capitalismo que deve ser extirpado. E, creio eu, isso talvez possa ser feito sem violência, uma vez que, de fato, ninguém necessita de acumular fortunas fantásticas para ser feliz.
PESSOAS DESIGUAIS – A sociedade também não necessita ser irretorquivelmente igualitária, mesmo porque as pessoas não são iguais. Um perna de pau não deve ganhar o mesmo que o Neymar, nem o Bill Gates o mesmo que ganha um chofer de táxi.
E, por falar nisso, para que alguém necessita ter a sua disposição milhões e milhões de dólares? Para jantar à tripa fora? Se ele investir esse dinheiro numa empresa, criando bem e dando emprego às pessoas, tudo bem. Mas ninguém necessita ter dez automóveis de luxo, vinte casas de campo nem dezenas de amantes.
Tais fortunas devem ser divididas com outras classes sociais, investidas na formação cultural e profissional das pessoas menos favorecidas, usadas para subvencionar hospitais e instituições para atender pessoas idosas e carentes.
SEM PRECONCEITOS Sucede que só avançaremos nessa direção se pusermos de lado os preconceitos esquerdistas e direitistas, que fomentam o ódio entre as pessoas.
Sabem por que Bill Gates deixou a presidência de sua empresa capitalista para dirigir a entidade beneficente que criou? Porque isso o faz mais feliz, dá sentido à sua vida.

A MANIFESTAÇÃO E OS DOIS FUNERAIS



Ontem tivemos protestos em várias cidades e, com maior ênfase, nas capitais. Talvez alguns movimentos em curso atendam aos interesses de grupos que não têm a melhor das intenções, pois defendem medidas que ferem a Constituição e atentam contra a nossa ainda frágil democracia.

Muitos brasileiros podem pensar que "sair atirando" é liberdade de expressão, mas não entendo que seja livre quem segue ondas que surgem por aí sem avaliar as consequências. Com o nobre propósito de apoiar Moro e defender a Lava Jato, há quem aproveite para conduzir as massas a clamar por medidas que, além de desviar o foco do chefão nove dedos, tendem a uma nova ditadura, como a proposta de fechamento do Congresso e o fora Temer. São pautas que estão unindo as ditas esquerda e direita, porém, é evidente que logo estarão brigando pelo poder. Que Deus nos livre do que pode resultar se algo desse tipo prosperar. 

Mesmo assim, toda manifestação é válida, desde que seja feita com responsabilidade, e não tem como não enaltecer o atual debate político que mobiliza cidadãos de todas as classes sociais. Vamos ficar atentos, entretanto, para defender apenas o que é bom para o Brasil e, sem a menor dúvida, ter consciência que o acirramento dos ânimos não é o melhor para o país porque abre caminho para oportunistas, habilidosos na arte de iludir, como aconteceu quando o eleitor resolver acreditar nas bravatas de Luiz Inácio.
Lula, como faz aquela criatura das trevas, dividiu o Brasil em "nós" contra "eles" e sempre apostou na calúnia para destruir a reputação de adversários, bem como em promover a discórdia para conquistar adeptos ao seu projeto de poder. Pois é, o tal "nós" está em Cuba idolatrando a alma de um tirano, ou alguém acredita que algum deles, Dilma ou Lula, se ainda estivesse na presidência deixaria de se ajoelhar ao Fidel para participar do funeral "deles"?

Enquanto isso, o mundo civilizado aplaude quem fala com o coração, por isso não entendo porque, mesmo que tenha virado modinha pregar sobre o perdão, tantos brasileiros vêm aderindo à onda do ódio contra tudo e contra todos. Sinceramente, não entendo a negação como solução, pois nós precisamos ter opções para tudo na vida, precisamos fazer escolhas, até mesmo na política.

PROTESTOS DOS "COXINHAS" APOIARAM O JUIZ SÉRGIO MORO E PEDIRAM O "FORA RENAN"...



Reinaldo Azevedo

Em muitas áreas, houve, sim, certa frustração com os protestos desde domingo. A expectativa de muitos, especialmente na imprensa, era de que “a classe média que derrubou Dilma” voltasse, agora, suas baterias contra o presidente Michel Temer. O objetivo de muitos é que esse fosse um primeiro ato a indicar uma fratura na base social que apoiou a transição segundo o que estabelece a Constituição.

Felizmente, os principais movimentos que organizaram o protesto não caíram na cilada. Essa era a torcida da esquerda, que, se apareceu, esteve camuflada. Preferiu não se meter no evento dos “coxinhas”. Afinal, dispõe de seus próprios meios e métodos para se fazer ouvir. De todo modo, é evidente que não vê com maus olhos um protesto de rua que têm como alvos os políticos.
E por que não?

Porque o governo Temer só pode entregar um país substancialmente diferente daquele que herdou se conseguir fazer a reforma da Previdência, cuja emenda será apresentada ao Congresso ainda neste ano. É evidente que, com a crispação em curso e com os políticos acuados, não encontraremos muitos deputados e senadores dispostos a aderir às reformas. Em política, milagres não acontecem. Já os desastres…

O presidente saudou nas redes sociais o comportamento civilizado dos manifestantes. Sim, também desta feita, embora com uma pauta substancialmente diferente daquela que levou milhões às ruas, eram pessoas de boa-fé a protestar, enfaradas, e com razão, do que se vê em Brasília e em toda parte.
Em muitas áreas, inclusive da imprensa, o que se queria era ouvir o eco “Fora Temer”. Analistas e colunistas os mais variados tentaram e tentam ainda jogar no colo do governo federal tanto a anistia que nunca houve como o que se chama de desfiguração das tais “Dez Medidas”.
Não há a menor evidência desse comprometimento. Antes Executivo e Legislativo trabalhassem assim de forma tão coordenada. Fosse assim, essa parceria também poderia valer para as medidas virtuosas. A verdade é que não é assim. O Congresso, o que não é anormal nas democracias, tem a sua própria agenda.

Nos dias que correm, o Congresso sente-se acuado pelo Ministério Público Federal. E está mesmo. E não apenas por bons motivos, diga-se. Quando um ente do Estado elege o Poder Legislativo como a fonte original de todos os desatinos da República e passa a se mover como se dispusesse de um mandato divino para dizer quem vive e quem morre, é claro que a reação é esperada, vira parte do jogo.

Essa guerra precisa acabar. E a única maneira de isso acontecer é cada uma dos entes voltar a seu leito, atendo-se a suas funções institucionais. Ou caminharemos para o pior dos mundos.
Voltarei, é certo, a esse assunto. Ainda que discorde da pauta que foi às ruas — e discordo, sim, porque a Lava-Jato não corre risco nenhum —, louve-se a sensibilidade dos movimentos de rua que não cederam à pressão mais do que indiscreta por associar a repulsa a eventuais manobras do Congresso ao “Fora Temer”. Não se tratou, em suma, como queriam alguns, de um ato contra o governo. Tanto melhor.










domingo, 4 de dezembro de 2016

MAIS DE 200 MIL PESSOAS COMPARECERAM NA AVENIDA PAULISTA MANDANDO TOMAR NO CU: RENAN, LULA, PETRALHAS E A COMUNISTADA SAFADA....








EIS ABAIXO ALGUMAS DAS CIDADES QUE REALIZARAM ATOS DEFENDENDO A LAVA JATO E O JUIZ SÉRGIO MORO


Balneário Camboriú (SC)


Florianópolis (SC)


Fortaleza (CE)

Guarapuava (PR)

Natal (RN)


São Carlos (SP)

Vassouras (RJ)
Volta Redonda (RJ)

Cuiabá (MT)
Governador Valadares (MG)




TUDO ISSO ACONTECEU HOJE, DOMINGO, EM MAIS DE 200 CIDADES ESPALHADAS PELO BRASIL. O PAÍS DISSE NÃO A LULA E O PT e SIM A LAVA JATO E AO JUIZ SÉRGIO MORO




























sábado, 3 de dezembro de 2016

CUBANO POR 30 DIAS...




COM O DESAFIO DE PASSAR UM MÊS EM HAVANA COM APENAS 15 DÓLARES, O REPÓRTER NORTE-AMERICANO PATRICK SYMMES NARRA SEU MERGULHO NA SOCIEDADE CUBANA E OS DIVERSOS "JEITINHOS" A QUE PRECISOU RECORRER PARA OBTER COMIDA, SE LOCOMOVER E ATÉ MESMO PARA DESTILAR RUM CASEIRO.

NAS DUAS PRIMEIRAS DÉCADAS da minha vida, acho que nunca passei mais de nove horas sem comer. Mais tarde, fiquei sujeito a períodos mais longos de fome, mas sempre voltei para casa, fui recebido com festa, comi tudo o que quis, no momento que quis, e recuperei o peso que tivesse perdido. Além disso, segui a trajetória habitual de uma vida americana, ganhando meio quilo de peso por ano, década após década. Quando decidi ir a Cuba e viver por um mês consumindo apenas aquilo que um cubano comum pode consumir, meu peso havia atingido 99 quilos; nunca tinha sido tão alto. Em Cuba, o salário médio é de US$ 20. Médicos chegam a ganhar US$ 30, e muitas outras pessoas ganham só US$ 10. Decidi que me concederia o salário de um jornalista cubano: US$ 15, a renda de um intelectual oficial. Sempre quis ser um intelectual, e US$ 15 representava uma vantagem significativa sobre os proletários que constroem paredes de alvenaria ou cortam cana por US$ 12, e quase o dobro dos US$ 8 da pensão de muitos aposentados. Com esse dinheiro, eu teria de comprar minha ração básica de arroz, feijão, batata, óleo, ovos, açúcar, café e tudo o mais de que precisasse. A primeira meia hora em solo cubano foi passada nos detectores de metais. Depois, como parte de um novo regime de vigilância que eu não havia encontrado em meus 15 anos anteriores de visita ao país, passei por um interrogatório intenso, porém amadorístico. Não era nada pessoal: todos os estrangeiros que chegaram no pequeno turboélice vindo das Bahamas foram separados do grupo e extensamente interrogados. Como em Israel, um agente à paisana me fez perguntas detalhadas, mas que não versavam sobre assuntos importantes. ("Para que cidade você vai? Onde ela fica?"). O objetivo era me provocar, revelar incoerências ou causar nervosismo. Ele não olhou minha carteira ou perguntou por que, se eu planejava passar um mês em Cuba, tinha menos de US$ 20 comigo. O olhar do agente se voltou aos demais passageiros. Eu tinha passado. "Trinta dias", eu disse à senhora que carimbou meu visto de turista. O prazo máximo. Havia uma placa pendente do teto do aeroporto, com o desenho de um ônibus. Mas nada de ônibus. Só mais tarde, explicou a mulher da cabine de informações. Haveria um ônibus -só um- naquela noite, por volta das 20h, para levar os funcionários do aeroporto de volta a suas casas. Eu teria de esperar seis horas. O centro de Havana fica a 16 quilômetros do aeroporto. PORQUE UM TÁXI CUSTARIA US$ 25 --OU SEJA, MAIS QUE O MEU ORÇAMENTO PARA TODO O MÊS--, EU TERIA DE IR A PÉ. A mesma mulher tirou do bolso do uniforme duas moedas de alumínio, e me deu: 40 centavos de peso, o equivalente a dois centavos de dólar. Na rodovia, a alguns quilômetros do aeroporto, eu talvez encontrasse um ônibus para a cidade. E em Havana eu poderia encontrar, ou teria de encontrar, uma maneira de sobreviver por um mês. Ergui a mochila aos ombros e comecei a caminhar, com as moedas de alumínio tilintando no bolso. Saí do terminal e atravessei o estacionamento, chegando à via de acesso. Comecei a caminhar pela estrada, deixando o mundo externo para trás a cada sólido passo. A intervalos de alguns minutos, táxis se aproximavam, buzinando, ou carros particulares paravam ao meu lado e me ofereciam uma jornada até a cidade por apenas metade do preço oficial. Eu continuei caminhando, devagar, deixando para trás os velhos terminais e contemplando os campos de vegetação esparsa. Os outdoors trombeteavam mensagens do passado:BUSH TERRORISTA. Depois de caminhar 40 minutos, cruzei por sobre os trilhos da ferrovia em uma passarela e, ao chegar à rodovia, tive sorte. O ônibus para Havana estava no ponto. Passada uma hora, eu havia chegado ao centro de Havana e estava de novo caminhando, em busca de um velho amigo. RACIONAMENTO As primeiras pessoas com quem conversei na cidade --desconhecidos que vivem perto da casa do meu amigo mencionaram o sistema de racionamento. Sem que eu perguntasse, eles me mostraram suas cadernetas de racionamento e se queixaram bastante. A caderneta --CONHECIDA COMO "LIBRETA"-- É O DOCUMENTO FUNDAMENTAL DA VIDA CUBANA. QUASE NADA MUDOU NO SISTEMA DE RACIONAMENTO: AINDA QUE AGORA SEJA IMPRESSA EM FORMATO VERTICAL, A CADERNETA É IDÊNTICA ÀS EMITIDAS ANUALMENTE DURANTE DÉCADAS. O QUE MUDOU FOI A TINTA: HAVIA MENOS TEXTO NA CADERNETA. O NÚMERO DE ITENS ERA MENOR, E AS QUANTIDADES TAMBÉM ERAM MENORES, MENOS DO QUE EM 1995, A ÉPOCA DE FOME DO "PERÍODO ESPECIAL". Desde então, a economia cubana se recuperou, mas o sistema cubano de racionamento ainda não. Em 1999, o ministro do Desenvolvimento de Cuba me disse que a ração mensal oferecia comida suficiente para apenas 19 dias, mas previu que esse total logo subiria. Na verdade, caiu. Ainda que hoje o volume total de alimentos disponíveis em Cuba seja mais alto e o consumo de calorias per capita também tenha crescido, isso não se deve ao racionamento. O crescimento ocorreu em mercados privatizados e hortas cooperativas, e por meio de importações maciças; a produção de alimentos pelo Estado caiu 13% no ano passado e a ração encolheu junto. A opinião geral é de que a ração mensal hoje só dá para 12 dias de comida. A MINHA VIAGEM SERVIRIA PARA QUE EU FIZESSE O MEU PRÓPRIO CÁLCULO: COMO ALGUÉM PODE SOBREVIVER DURANTE UM MÊS COM COMIDA PARA APENAS 12 DIAS? CADERNETA Cada família recebe uma caderneta de racionamento. As mercadorias são distribuídas numa série de mercearias (uma para laticínios e ovos, outra para "proteínas", outra para pão; a maior delas cuida dos enlatados e outros produtos embalados, de café e óleo a cigarros). Cada loja conta com um administrador que anota na caderneta a quantidade de produtos retirada pela família. Os vizinhos do meu amigo --marido, mulher e neto-- receberam a ração padronizada de produtos básicos, que consiste, por pessoa, em: DOIS QUILOS DE AÇÚCAR REFINADO MEIO QUILO DE AÇÚCAR BRUTO MEIO QUILO DE GRÃOS UM PEDAÇO DE PEIXE TRÊS PÃEZINHOS RIRAM MUITO QUANDO PERGUNTEI SE RECEBIAM CARNE DE VACA. "FRANGO", DISSE A MULHER, MAS ISSO PROVOCOU UIVOS DE PROTESTO: "QUAL FOI A ÚLTIMA VEZ QUE RECEBEMOS FRANGO?", O MARIDO QUESTIONOU. "POIS ENTÃO, É VERDADE", ELA DISSE. "JÁ FAZ ALGUNS MESES." A RAÇÃO DE "PROTEÍNA" É DISTRIBUÍDA A CADA 15 DIAS E CONSISTE NUMA CARNE MOÍDA DE MISTERIOSA COMPOSIÇÃO, QUE INCLUI UMA BELA PROPORÇÃO DE PASTA DE SOJA (SE A CARNE FOR SUÍNA, A MISTURA RECEBE O FALSO NOME DE "PICADILLO"; SE FOR FRANGO, É CONHECIDA COMO "PUELLO CON SUERTE", OU FRANGO COM SORTE). A RAÇÃO BASTA PARA O EQUIVALENTE A QUATRO HAMBÚRGUERES POR MÊS, MAS ATÉ AQUELE MOMENTO, EM JANEIRO DE 2010, CADA UM SÓ HAVIA RECEBIDO UM PEIXE --EM GERAL, UMA CAVALA SECA E OLEOSA. E HÁ OS OVOS. A MAIS CONFIÁVEL DAS FONTES DE PROTEÍNAS, ELES SÃO CONHECIDOS COMO "SALVA-VIDAS". ANTIGAMENTE, A RAÇÃO ERA DE UM OVO POR DIA; DEPOIS, UM OVO A CADA DOIS DIAS; AGORA, É DE UM OVO A CADA TRÊS DIAS. EU TERIA DEZ DELES COMO RAÇÃO PARA O MÊS SEGUINTE. Meu amigo me conduziu a uma residência particular no bairro de Plaza, onde eu alugaria um apartamento por um mês --a única despesa que deixo fora de minhas contas aqui. O apartamento era espartano, em estilo cubano: dois cômodos, cadeiras sem almofadas, um fogareiro de duas bocas numa bancada e um frigobar. No meu segundo dia, comecei comendo um bagel de gergelim, e distraidamente o devorei inteiro, como se fosse possível comprar outro. De acordo com um aplicativo de contagem de calorias instalado em meu celular, o bagel tinha 440 calorias. Tudo que comi pelos 30 dias seguintes foi anotado com ajuda do pequeno teclado, registrado, tabulado em termos diários e semanais, dividido em proteínas, carboidratos e gordura, avaliado por meio de gráficos de barras. Um homem ativo do meu tamanho (1,88 metro, 95 quilos) precisa de cerca de 2,8 mil calorias diárias para manter o peso. Eu ainda não tinha conseguido quaisquer outros suprimentos de comida, e concluí meu café da manhã quando a faxineira de meu senhorio me deu dois pequenos copinhos de café muito açucarado (75 calorias). Da mesma forma que os cubanos aproveitam lacunas nos regulamentos para sobreviver, decidi explorar minha evidente condição de estrangeiro em meu benefício, e passei o dia entrando e saindo de hotéis nos quais poucos cubanos estão autorizados a entrar. Isso me dava acesso a ar condicionado, papel higiênico e música. Passei pela segurança no Habana Libre, o antigo Hilton, e subi de elevador até o topo, que oferecia lindas vistas de Havana ao crepúsculo. A boate ainda não estava aberta, mas entrei mesmo assim; apanhei um ensaio em curso. Um roqueiro russo, com uma banda de apoio de mais de 30 músicos, estava passando o som do show que faria mais tarde. O hotel serviu chá e água mineral em garrafas aos músicos, e aproveitei a oportunidade para beber bastante. O sabor adstringente do chá --mediado por muito açúcar- finalmente começou a fazer sentido para mim. Era a bebida dos noviços em um mosteiro, das pessoas famintas e enregeladas. Seu objetivo é matar o apetite. Havia restos de um lanche. Encontrei apenas um sanduíche e meio de queijo, abandonado em um guardanapo perto da seção de cordas; coloquei o guardanapo no bolso. Caminhei por uma hora, atravessando Havana para voltar ao meu quarto, passando por dezenas de lojas novas --açougues, bares, cafés, pizzarias e outros prolíficos fornecedores de alimentos vendidos apenas em moeda forte. Detive-me por longo tempo, contemplando os imensos peitos de peru expostos na vitrine de uma das lojas. Quando enfim cheguei ao meu quarto, os sanduíches se haviam desintegrado no meu bolso, em uma massa de migalhas, manteiga e queijo sintético, mas os comi mesmo assim, devagar, prolongando a experiência. Eu sempre havia desdenhado os cubanos que se dispõem a aplaudir o regime em troca de um sanduíche, mas, já no meu segundo dia na ilha, eu me sentia disposto a denunciar Obama em troca de um biscoito. NA MANHÃ DO TERCEIRO DIA, caminhei mais de duas horas por Havana em busca de comida, queimando 600 calorias, o equivalente aos sanduíches consumidos um dia antes. Eu havia presumido, erroneamente, que poderia simplesmente comprar a comida de que precisaria para o mês. No entanto, por ser norte-americano, eu era inelegível para o racionamento, nos termos do qual o arroz custa dois centavos de dólar o quilo. Como "cubano" vivendo com salário de US$ 15 ao mês, eu não teria como comprar comida fora do sistema, nas dispendiosas lojas que vendem alimentos em dólares. Os cubanos chamam essas pequenas lojas, que vendem de tudo, de pilhas e carne bovina a óleo de cozinha e fraldas, de "EL SHOPPING". Depois de horas de frustração, e incapaz de comprar qualquer comida, voltei de ônibus ao apartamento. Eu não tinha almoçado. Por fim, já que não conseguia mais ficar parado, corri para fora da casa e, seguindo uma dica, encontrei uma casa a alguns quarteirões de distância em cujo portão havia um cartaz com a palavra "café". Na parte traseira da casa havia uma janela gradeada, e eu passei o equivalente a 40 centavos de dólar pela janela. Uma mulher me serviu um pãozinho com apresuntado. Um copo de suco de papaia me custou mais 12 centavos de dólar. Embora eu tentasse comer devagar, o almoço desapareceu em questão de minutos. A ESSE RITMO --50 CENTAVOS DE DÓLAR POR REFEIÇÃO-, MINHA RESERVA DE DINHEIRO SERIA CONSUMIDA RAPIDAMENTE, E SAÍ DAQUELE QUINTAL PROMETENDO A MIM MESMO QUE JANTARIA QUASE NADA. De manhã, notícias piores me aguardavam quando tentei me vestir. Descobri que o zíper de minha calça estava enguiçado. Como parte do meu esforço para parecer e me sentir cubano, só havia levado duas calças na bagagem. Calças são um dos muitos itens não alimentícios também distribuídos como parte da ração, e isso em geral quer dizer apenas uma calça por ano. A maioria dos cubanos se vira com apenas um ou dois exemplares de cada peça de roupa. Por isso, o zíper quebrado teria de ser reparado --em janeiro, não havia distribuição de calças. Depois do fracasso de alguns esforços nada competentes para consertar o zíper sozinho, compreendi que teria de gastar dinheiro, ou trocar alguma coisa, pelo trabalho de um alfaiate. Café da manhã: duas xícaras de café açucarado. Total de 75 calorias. MERCADO NO QUARTO DIA, saí para comprar comida, experiência ridícula. Por sorte, o apartamento que aluguei ficava perto do maior e melhor mercado de Havana, que não é nem tão grande e nem tão bom assim. O mercado era um "agro", ou seja, um sacolão. Há quem compare esses mercados às feirinhas de produtos orgânicos norte-americanas, mas não havia conversa amistosa entre comprador e vendedor, e sim um ruidoso, lotado e barulhento corredor repleto de bancas vendendo todas o mesmo estreito elenco de produtos, a preços aprovados pelo Estado: abacaxis, berinjelas, cenouras, pimenta verde, tomate, cenoura, iúca, alho, bananas-da-terra e não muito mais. Numa sala separada, havia carne de porco à venda, pilhas trêmulas de carne rosada e pálida, manipulada por homens de mãos nuas. Carne era um produto além de meu alcance, embora houvesse "gordura" à venda por US$ 1 (27 pesos) o quilo. Esperei na fila para converter todo o meu dinheiro --18 pesos conversíveis, a moeda forte cubana-- em pesos comuns. A pilha de cédulas desgastadas e sujas que resultou da transação equivalia a 400 pesos, ou cerca de US$ 16, pela cotação do mercado negro de Havana. Enfrentei as multidões e comprei uma berinjela (10 pesos), quatro tomates (15), uma cabeça de alho (2) e algumas cenouras (13). No balcão da padaria, a mulher que atendia me disse que pães só podiam ser vendidos a portadores de cadernetas de racionamento --mas mesmo assim me vendeu cinco pãezinhos, avidamente apanhando cinco pesos de minha mão. Só fui bem tratado pelo vendedor de tomates, que me ofereceu um tomate de brinde. DOIS PESOSCuba tem duas moedas, o peso valioso, oficialmente conhecido como CUC, e chamado de cuc, fula, chavita e convertible; ele foi introduzido para eliminar a presença de moeda estrangeira no país e seu valor deveria equivaler ao do dólar norte-americano, em termos gerais, ao menos antes da comissão de 20% cobrada pela conversão. A outra moeda é o humilde peso comum (conhecido como peso). Os salários dos cubanos são pagos em pesos comuns, e para comprar qualquer coisa importante eles precisam convertê-los em CUC, à taxa de 24 por um. Uma caixinha de macarrão frito no bairro chinês de Havana custava "72/2,5",em pesos comuns e CUC, respectivamente, e o preço nos dois casos representava cerca de 15% da renda mensal média. Comprei 1,5 quilo de arroz por pouco mais de 10 centavos de dólar, e um saco de feijão vermelho. COM ISSO, A CONTA FINAL SUBIU A CATASTRÓFICOS US$ 2, POR UMA QUANTIDADE DE COMIDA QUE PRODUZIRIA APENAS ALGUMAS REFEIÇÕES. Alguns moleques me seguiram até a saída, murmurando "camarão, camarão, camarão", em um esforço para me vender alguma coisa. Do lado de fora, um homem viu que eu me aproximava e subiu numa árvore, descendo com cinco limões que me ofereceu. (Não era um limoeiro, e sim o lugar em que guardava seus produtos de mercado negro.) Cheguei em casa cambaleando com o peso do arroz e dos legumes, com cara, segundo a mulher de meu senhorio, de homem divorciado a ponto de começar vida nova. DINHEIRO As calorias acumuladas inevitavelmente me levaram a refletir sobre o outro lado da equação: dinheiro. Como eu conseguiria sobreviver dali a duas semanas, se a cada vez que fizesse compras gastasse US$ 2? Eu continuava a fazer tudo a pé, o que me custava 60 minutos apenas para chegar aos hotéis de turistas em Vedado (nos quais não encontrei mais nenhum sanduíche extraviado), ou para encostar o rosto contra as grades de ferro de algum restaurante, assistindo, em companhia de quatro ou cinco cubanos, à banda que tocava mambo para os estrangeiros. A cada dia eu era abordado por cubanos que, de uma ou outra maneira, me pediam dinheiro. E sabia que minhas escolhas pessoais seriam igualmente desagradáveis, algumas semanas adiante. Será que eu deveria me posicionar em uma esquina e pedir dólares a desconhecidos? Até que ponto uma pessoa precisa estar faminta para se tornar parecida com a adolescente pela qual passei em uma calçada de Vedado naquela tarde; ela trazia um bebê no colo, mas se voltou para mim e disse: "Deseas una chica sucky sucky?" CAFÉ Se era questão de chupar alguma coisa, eu já sabia exatamente o quê. Apanhei-me contemplando os Ladas que passavam, para ver se as tampas de seus tanques de gasolina tinham trancas. Com uma mangueira e um recipiente plástico, eu poderia obter cinco litros de gasolina e vendê-la por intermédio de um amigo no bairro chinês. Mas todos os carros de Cuba têm trancas nas tampas do tanque de combustível, ou ficam protegidos atrás de portões trancados, à noite. Já havia homens demais, e bem mais durões que eu, envolvidos nesse tipo de trabalho. Cuba não é terra para ladrões amadores. Eu precisava de café, mas nenhuma loja tinha estoque desse produto essencial. Nem mesmo a loja do meu bairro que opera com moeda forte tinha café, e visitas repetidas aos supermercados que vendem em dólares, em Vedado, e às lojas de diversos hotéis resultaram em zero café, por todo o mês. Certa vez vi um pacote de meio quilo de Cubacafe, a marca de exportação, à venda em um cinema da Velha Havana. Mas custava 64 pesos, e mesmo que a abstinência de café estivesse me matando, eu não tinha como pagar tão caro, ou andar toda aquela distância de novo. Da janela do meu banheiro, percebi que a loja de produtos racionados estava aberta, e fui até lá. Em uma prateleira, havia cinco sacos de café. Eram da marca doméstica, Hola, um café claro, em contraposição ao pó escuro do Cubacafe, e o preço era de pouco mais de um peso pelo primeiro pacote de 100 gramas, e de cinco pesos por pacote adicional. Havia cerca de uma dúzia de pessoas disputando o pão e o arroz, e por isso pude estudar as duas lousas nas quais a loja anunciava os produtos disponíveis. A maior delas mencionava os produtos básicos --os primeiros dois quilos de arroz custam 25 centavos de peso; cada comprador pode comprar um quilo adicional por 90 centavos de peso. O limite de compras era de três quilos de arroz ao mês, para prevenir que as pessoas comprassem arroz e o revendessem em busca de lucros. A lousa menor informava sobre os "produtos liberados", e continha uma lista menor de coisas como cigarros e outros bens que podem ser adquiridos sem restrições. Eu disse "el último", e tomei lugar na fila por trás do comprador que antes era o último. Logo chegou uma mulher com uma sacola plástica nas mãos e disse "el último", e se tornou a última da fila. O homem que me atendeu sorria, mas parecia agitado. Era alto, negro, e usava uma barba rala, mal cuidada. Quando pedi café, fez um gesto negativo com as mãos. Não era preciso explicar: um estrangeiro não tem direito a ração, e de qualquer jeito não havia café. Tentei ganhar tempo, esticando uma conversa à qual ele só respondia com gestos. Perguntei se não havia café em parte alguma, e disse que havia procurado por toda a cidade, sem encontrar. Acrescentei que realmente gostava de café. Sabe? "Os cubanos bebem muito café", ele por fim respondeu. Tendo estabelecido uma conexão, eu acenei com a cabeça e perguntei se não seria possível conseguir café em algum lugar. "Não", ele respondeu. Sério? Talvez alguém, em algum lugar? Nem precisa ser muito. Ele meneou a cabeça; o gesto do talvez. Quem? "A Sra. __", respondeu. E onde posso encontrá-la? Como se estivesse guiando um cego, ele saiu de trás do balcão, me apanhou pelo braço e me conduziu até a rua. Caminhamos apenas 10 passos, sem mudar de calçada. Ele entrou na primeira porta, e distraidamente apertou o traseiro de uma mulher que estava passando. ("Ei!", ela exclamou, furiosa. "Quem você acha que é?") Paramos na porta de um apartamento localizado imediatamente atrás da loja de produtos racionados. Ele bateu. A PORTA FOI ABERTA POR UMA MULHER COM UM BEBÊ NO COLO. "CAFÉ", ELE DISSE. PAGUEI COM UMA NOTA DE 20 PESOS. ELA ME DEU UM PACOTE DE HOLA E CINCO PESOS DE TROCO. "SÓ ISSO?" ERA TRÊS VEZES MAIS QUE O PREÇO COBRADO NA LOJA, A ALGUNS PASSOS DE DISTÂNCIA, MAS DESCOBRI MAIS TARDE QUE OS CUBANOS TAMBÉM TÊM DE PAGAR O MESMO ÁGIO. O homem fez que sim com a cabeça. Seu nome era Jesús. Voltamos à loja. "Pão?", perguntei. Ele perguntou ao seu chefe, que respondeu com um "não" em volume alto o bastante para que a loja toda ouvisse. Perguntei de novo. Ele repetiu a pergunta ao chefe. Não ouvi um novo não. Passei-lhe a nota de cinco pesos e recebi cinco pãezinhos. Depois disso, pude comprar tudo que queria. Em companhia de Jesús, ninguém perguntava coisa alguma. Ninguém me pediu para ver minha caderneta de racionamento, nas compras dos itens básicos, e pelo resto do mês paguei o mesmo preço que os cubanos, pela mesma merda de comida. PEDESTRE No sexto dia, fui a pé aos subúrbios, saindo de meu bairro, Plaza, e passando por Vedado rumo ao oeste, e pelo imenso cemitério de Colón, que abriga os mausoléus e os anjos alados das famílias ricas do passado cubano, bem como os sepulcros de concreto da classe média. Um jovem chamado Andy caminhou comigo por algum tempo, entusiasmado por aprender mais sobre os Estados Unidos. ("TODOS QUEREMOS VIVER LÁ"); ele me convidou para conhecer a barbearia de um amigo. Mais tarde, de novo sozinho, passei por alguns cafés, e estudei com atenção todas as pequenas barracas. Uma delas oferecia "pão com hambúrguer" por 10 pesos, o menor preço que havia visto até então. Mas ainda assim seria um gasto alto demais para aquele dia. COMIDA ROUBADAFui perseguido por duas mulheres que acenavam com uma lata imensa de molho de tomate e gritavam "15 pesos! É para os nossos filhos!" Não parei, mas depois percebi que havia cometido um erro. Ao preço de 15 pesos por uma lata em tamanho restaurante, o molho de tomate seria uma pechincha. Comida roubada é a mais barata. E nada poderia ser mais normal em Cuba do que caminhar carregando uma lata gigante de alguma coisa. Poucos quarteirões adiante, cheguei por acaso ao Museu do Ministério do Interior. A equipe era formada por mulheres com o uniforme do Minint, com ombreiras verdes e saias na altura do joelho. Informaram-me que o ingresso custava dois CUC. Eu não tinha como pagar, é claro. E quanto custa o ingresso para os cubanos? Pergunta errada. Ninguém pechincha com o Minint. Eu disse que voltaria outro dia, mas fiz hora no saguão de entrada, que serve como local para exposição: uma bancada de metralhadoras, fotos da grande sede do Minint, perto do meu apartamento, e citações em letras grandes de frases de Raúl Castro e outras autoridades, com elogios aos patriotas do Minint por protegerem o país. Uma das mulheres, que usava o cabelo preso em um coque severo, estava me observando. Embora eu não tivesse fotografado nada e nem tomado notas, ela parecia astuta. "Quem é você?", ela perguntou. Eu sorri e comecei a caminhar para a saída. "Você é jornalista?", ela quis saber. "Turista", disse, olhando por sobre os ombros e caminhando apressado para a saída. "Você tem credencial para vir aqui?", ela me perguntou, de longe. Continuei a caminhar rumo oeste, por mais meia hora. Estava coberto em suor quando cheguei à casa de Elizardo Sánchez, um dos alvos do Minint.PROGRESSO Quando contei a Sánchez que havia caminhado até sua casa, como parte de um plano para passar 30 dias vivendo e comendo como um cubano, ele me mostrou sua caderneta. "O NOME DISSO É CADERNETA DE SUPRIMENTOS", disse ele, "mas é um sistema de racionamento, o mais duradouro do mundo. Os soviéticos não tiveram racionamento por tanto tempo quanto os cubanos. Nem mesmo o racionamento chinês durou tanto." A escassez surgiu logo depois da revolução; o sistema para a distribuição controlada de bens básicos já estava em funcionamento em 1962. Depois de 50 anos de Progresso, o país está falido, na prática. Em 2009, ervilhas e batatas foram retiradas da ração e os almoços baratos nos locais de trabalho foram reduzidos às dimensões de lanches rápidos. "Havia rumores sobre retirar coisas da ração, ou eliminar o sistema de vez", disse Sánchez, sobre boatos que cativam os cubanos. Mas esses rumores desapareceram em 1º de janeiro de 2010, quando novas libretas foram distribuídas, a exemplo de todos os outros anos. ARTES DOMÉSTICAS Sánchez mantém alegre ignorância quanto às artes domésticas. "Dois quilos de arroz a 25 centavos", ele disse, tentando recordar sua ração mensal. "Acho. E mais meio quilo a 90 centavos. Acho. Vamos perguntar às mulheres. Quanto a isso, elas dominam". Ele chamou a mulher com quem vive, Barbara. Além de trabalhar como advogada em defesa de prisioneiros políticos, ela cozinha e ajuda sua mãe e uma sócia a manter uma padaria na cozinha de sua casa. Elas compraram uma saca de trigo "à esquerda", o que significa que se trata de farinha roubada, comprada de um contato. O custo foi de 30 pesos. Com isso e uma porção de carne moída comprada clandestinamente no açougue, elas fazem pequenas empanadas vendidas a três pesos a unidade, ou cerca de oito por US$ 1. É ASSIM QUE CUBA SE AJEITA: AS LOJAS DE PRODUTOS RACIONADOS TÊM MORADORES DOS BAIRROS COMO FUNCIONÁRIOS; ELES ROUBAM INGREDIENTES E OS VENDEM AOS VIZINHOS, QUE PRODUZEM ALGUMA COISA COM ELES E REVENDEM A ESSES E OUTROS VIZINHOS. Oito empanadas seriam um bom almoço, mas US$ 1 era preço fora do meu orçamento. Barbara me deu duas delas, e eu as demoli com uma mordida. Ela ouviu com expressão neutra, quando expliquei minha tentativa de viver dentro dos limites do racionamento. "É UM BOM PLANO DE DIETA", comentou. Outro dissidente que estava visitando a casa, Richard Rosello, entrou na conversa. Ele tem um caderno no qual anota os preços dos produtos nos mercados paralelos, também conhecidos como mercados clandestinos ou mercados mala preta. "UM PROBLEMA É A COMIDA", disse Rosello. "MAS TAMBÉM TEMOS O PROBLEMA DE COMO PAGAR A CONTA DE LUZ, O GÁS, O ALUGUEL. O PREÇO DA ELETRICIDADE ESTÁ DE QUATRO A SETE VEZES MAIS ALTO QUE NO PASSADO". Elizardo paga cerca de 150 pesos por mês de eletricidade --um quarto do salário médio cubano. Como sobreviver, portanto? "Os cubanos inventam alguma coisa", disse Barbara. Um dos truques é vender os bens racionados, comprados a baixo preço, pelo valor de mercado. Foi assim que enfim consegui comprar minha porção de 10 ovos. Sem a caderneta de racionamento, não tinha como comprá-los legalmente. Mas ao anoitecer do dia anterior, eu havia esperado perto da loja de ovos local, onde troquei um olhar com uma mulher idosa que estava saindo com 30 ovos --um mês de suprimento para três pessoas. Ela os comprou a 1,5 peso por unidade, e me vendeu 10 deles por dois pesos cada. Voltou à loja e imediatamente comprou mais ovos, lucrando três ovos e alguma sobra de dinheiro com a transação. Os dois caminhamos de volta para nossas casas cuidadosamente, com medo de desperdiçar toda a ração mensal de proteína por conta de um único tropeço. Barbara aproveitou para apontar um erro terrível em meu plano. NOS ÚLTIMOS ANOS, A MAIORIA DAS FONTES FORA DE CUBA REPORTA QUE A RAÇÃO INCLUI 2,5 QUILOS DE FEIJÃO PRETO. MAS HÁ ANOS ISSO NÃO É VERDADE. A PORÇÃO DO MÊS ERA DE APENAS 200 GRAMAS. DEZ MIL CALORIAS HAVIAM DESAPARECIDO DO MEU MÊS EM UM PISCAR DE OLHOS. Para atenuar o golpe, Barbara decidiu me convidar para um "típico" almoço cubano. O primeiro prato é arroz --a dois ou 2,5 quilos por mês, esse grão é o alimento básico da dieta cubana. A porção diária de arroz reservada a cada cidadão poderia ser guardada em uma lata de leite condensado. Trata-se de arroz vietnamita de baixa qualidade, conhecido como "creole", "feio" ou "microjet", este último termo uma referência zombeteira a um dos planos de Fidel para irrigar safras agrícolas por meio de um sistema de aspersão por gotas. O almoço típico inclui meia lata de arroz (a outra metade fica para o jantar); era uma massa grudenta, mas minha fome ajudou a considerá-lo saboroso. Depois, uma terrina de sopa de feijão. Cada terrina continha apenas alguns feijões, mas o caldo era rico, reforçado com ossos de boi. ("20 PESOS O QUILO, PARA OS OSSOS", DISSE BARBARA. "MUITA GENTE NÃO TEM COMO COMPRÁ-LOS".) Eu não comia carne bovina havia seis dias. Depois, ela me deu meia batata doce. "MUITO MELHOR QUE A BATATA COMUM, EM TERMOS DE NUTRIÇÃO!", disse Elizardo, de algum lugar do corredor. Também me serviram um ovo frito, ainda que Elizardo tenha apontado, em novo grito, que "SE VOCÊ COMER UM OVO HOJE, NÃO PODERÁ COMER AMANHÃ". Ou depois de amanhã. O ovo caiu muito bem. Dadas as dimensões reduzidas do meu estômago, a refeição toda, incluindo as duas pequenas empanadas, pareceu perfeitamente adequada. Mastiguei os ossos, extraindo pequenos pedaços de carne. Era minha melhor refeição em alguns dias. Barbara guardou cuidadosamente o óleo da frigideira. Richard, com seu caderninho de preços, expôs a matemática dessa forma de alimentação. Uma "cesta mensal" de comida racionada (que dura apenas 12 dias) custa 12 pesos por pessoa, de acordo com as contas do governo. Nos 10 dias seguintes de cada mês, as pessoas precisam comprar o mesmo volume de comida por 220 pesos, nos diversos mercados livres, paralelos e negros. E ainda assim isso só conduz o cidadão ao 22º dia do mês. As despesas mensais envolvidas em manter o mesmo padrão de alimentação seriam de 450 pesos --o que supera a renda de milhões de cubanos, e isso sem incluir roupas, transportes ou produtos para a casa. Ninguém mais consegue comprar pratos e xícaras. Eles são roubados de empresas estatais, quando possível, e vendidos no mercado negro. Quanto a roupas, é preciso comprá-las usadas, em mercados de troca conhecidos como troppings, um trocadilho com o apelido das lojas que vendem em moeda forte. Pessoas cuja comida acaba vasculham latas de lixo ou se tornam alcoólatras para atenuar a dor, disse Richard. Elizardo voltou à sala. "NÃO ESTAMOS FALANDO DO HAITI, OU DO SUDÃO", disse. "As pessoas não caem nas ruas, mortas devido à fome. Por quê? Porque o governo garante dois ou 2,5 quilos de açúcar, que tem alto teor calórico, e uma porção diária de pão, e arroz suficiente. O problema em Cuba não é a comida ou as roupas. É a completa falta de liberdade cívica, e portanto de liberdade econômica, o que é exatamente o motivo para que exista a libreta, para começar". Como no resto do mundo, o problema da comida na verdade é um problema de acesso, de dinheiro. E o problema de dinheiro é um problema político. NO SÉTIMO DIA,eu repousei. Deitado na cama com Victor Hugo, perdido na contemplação daquele teste da bondade humana, era fácil esquecer por uma hora que minhas gengivas doíam, que minha garganta estava repleta de saliva. Havana está mudando, como as cidades costumam. A região central foi colocada sob o controle de Eusebio Leal Spengler, o historiador da cidade. Leal recebeu prioridade especial para materiais de construção, mão de obra, caminhões, ferramentas, combustível, encanamentos e até mesmo torneiras e vasos sanitários. Mas não é por isso que as pessoas o amam. Em lugar disso, explicou meu amigo, o acesso "privilegiado" a suprimentos significa simplesmente que há mais para roubar. UMA AMIGA ESTAVA REFORMANDO A CASA NA ESPERANÇA DE ALUGAR APOSENTOS PARA ESTRANGEIROS, E PASSADOS ALGUNS MINUTOS OUVIMOS UM CAMINHÃO FREANDO NA RUA, E O ESTRONDO DE UMA GRANDE BUZINA. O MARIDO DELA ME FEZ UM SINAL APRESSADO, E ABRIMOS JUNTOS A PORTA DA FRENTE. HAVIA UM CAMINHÃO PARADO À PORTA. EM 60 SEGUNDOS, TRÊS PESSOAS, ENTRE AS QUAIS EU, DESCARREGARAM 250 QUILOS DE SACOS DE CIMENTO PORTLAND. O MARIDO PASSOU ALGUM DINHEIRO AO MOTORISTA, NOTAS AMARFANHADAS, E O CAMINHÃO PARTIU IMEDIATAMENTE. O caminhoneiro havia faturado com material de construção destinado a alguma obra. Passamos meia hora transferindo o cimento a um canto escuro de um quarto dos fundos, recobrindo os sacos com uma lona, porque as letras da embalagem eram impressas em azul, o que configura propriedade do Estado. Os sacos com letras verdes são destinados à construção de escolas. Os sacos reservados ao uso dos cidadãos comuns vêm impressos em vermelho, e custam US$ 6 a unidade, nas lojas do Estado. Ao contrário da maioria dos funcionários cubanos, Leal de fato fez diferença na vida dos cidadãos. Reconstruiu os velhos hotéis; meus amigos roubaram 250 quilos de cimento para construir seu novo bangalô para turistas. Restaurou um museu, e meus amigos roubaram telhas de zinco para os telhados. Enviou caminhões carregados de madeira ao bairro, e metade da carga desapareceu. Tudo é propriedade do Estado. As pessoas se apoderam de tudo. Um sistema de racionamento operando em modo reverso. AJUDAR NO ROUBO DO CIMENTO FOI MEU PRIMEIRO GRANDE SUCESSO. POR MEIA HORA DE TRABALHO, RECEBI UM PRATO IMENSO DE ARROZ COM FEIJÃO VERMELHO, ACOMPANHADO POR UMA BANANA E UMA PORÇÃO DE PICADILLO --PELO MENOS 800 CALORIAS. SEGUNDA SEMANA A segunda semana foi mais fácil. As duas pequenas prateleiras do apartamento estavam bem abastecidas de arroz e feijão, algumas batatas doces compradas por 1,70 peso o quilo, e minha garrafa de uísque contrabandeado, ainda pela metade. Eu tinha nove ovos, depois oito, e depois sete, ainda que a geladeira fora isso estivesse vazia. Deixei de lado luxos como os sanduíches (ou sanduíche --comprei só um, e a despesa ainda me causava pesadelos). NO DÉCIMO DIA, constatei que me restavam 100 pesos. Como no caso dos ovos, eu era capaz de imaginar uma lenta e cuidadosa redução ao longo dos próximos 20 dias, mas tanto meu orçamento quanto minha dieta podiam ser arruinados caso eu tropeçasse e deixasse uma gema cair no chão. Tudo dependia de quanto o arroz duraria. Já que só me restavam cinco pesos por dia para gastar, eu não poderia mais fazer compras grandes durante a minha estadia. Aprendi a controlar o apetite e a passar sem me deter pelas filas de cubanos que adquirem pequenas bolas de farinha frita a um peso. MEU ÚNICO LUXO FOI UMA BARRA DE MANTEIGA DE AMENDOIM ENDURECIDA, PRODUZIDA ARTESANALMENTE POR AGRICULTORES, QUE COMPREI POR CINCO PESOS EM UM AGRO. Com cuidado, essa barra de tamanho equivalente a seis colherinhas de amendoim moído rusticamente e pesadamente açucarado podia durar até dois dias. É normal ver os campesinos mais pobres mascando essas barras, que eles embrulham cuidadosamente e guardam depois de cada mordida. TRABALHO Outra coisa que eu tinha em comum com a maioria dos cubanos é que absolutamente não trabalhei durante meus 30 dias. O que significa que trabalhei muito e com grande frequência em meus projetos pessoais. Carreguei cimento e removi cascalho por dinheiro, e escrevi bastante, mas não se tratava de trabalho para o Estado, o tipo de trabalho computado nas contas da Cuba oficial, onde mais de 90% das pessoas são funcionários do Estado. Por que procurar emprego? Ninguém leva seu trabalho a sério, e a piada mais velha de Havana continua a ser a melhor: "Eles fingem que nos pagam, nós fingimos que trabalhamos". Os cubanos que ignoram convocações oficiais ao trabalho podem ser acusados de serem "elementos perigosos", um delito vago e passível de pena de até quatro anos de prisão. Ser um elemento perigoso é um "pré-crime", disse Elizardo Sánchez --como se a polícia tentasse cortar pela raiz as atitudes negativas antes que a pessoa tenha a oportunidade de cometer um crime real. Há campanhas regulares para deter os jovens que tentem evitar o trabalho estatal e o serviço militar, e este ano elas se provaram especialmente vigorosas, um sinal de nervosismo."NÃO É FÁCIL SE ESCONDER DO GOVERNO", disse Sánchez. "OS MENINOS PRECISAM SE REGISTRAR PARA FUTURO SERVIÇO MILITAR AOS 15 ANOS DE IDADE. ÀS VEZES TENTAM MUDAR DE ENDEREÇO, MAS NÃO FUNCIONA. PARA UM JOVEM, É DIFÍCIL PERMANECER ESCONDIDO. CUBA É UMA SOCIEDADE DE ARQUIVOS. DA PRIMEIRA SÉRIE EM DIANTE, A POLÍCIA PARA CRIANÇAS NAS RUAS E LHES SOLICITA DOCUMENTOS DE IDENTIDADE. PODEM FAZER CONTATO PELO RÁDIO E PEGAR A FICHA COMPLETA". CARAMELO Com isso, eu tinha tempo de sobra. Naquela noite, ouvi música ao longe e encontrei uma série de palcos montados ao longo da rua 23, e assisti a um bom show de rock sob a luz da lua. Sentei-me no pedestal de alguma obscuridade heróica --uma mãe estendo os braços para entregar o filho à batalha. Depois de algum tempo, uma menininha de sete ou oito anos se aproximou e sentou perto de mim. "Caramelo?", disse. (Doce?) "Não tenho". "Nenhum?" "Nada". "Mas nenhum, mesmo?" "Não". Então vieram as perguntas usuais: de onde você vem, onde mora, por que está por aqui. E de novo: "Não tem dinheiro nenhum?" "Não tenho". "Mas os estrangeiros sempre têm muito dinheiro". "Sim, tenho dinheiro no meu pais. Aqui, vivo como se fosse cubano". "ME DÁ UM PESO?" Não posso. A verdade, pequena, é que estou no meio de um jogo. Estou fingindo ser pobre. Estou vivendo como seus pais, por algum tempo. Não como há nove horas. Nos 11 últimos dias, comi 12 mil calorias a menos do que minha dieta normal disporia. Meus dentes doem muito. Ou, traduzido para o espanhol: "Não". MIL CALORIAS Por fim, voltei para casa, onde uma celebração muito desejada me aguardava. Era sexta-feira, a noite da semana em que eu comeria carne. Ainda que o dia até aquele momento tivesse sido um de meus piores --apenas mil calorias até as 21h, e longas caminhadas-, estava determinado a compensar tudo aquilo com um banquete. Preparei arroz, e cozinhei uma batata doce na panela de pressão --que os cubanos apelidam de "AQUELA QUE FIDEL NOS DEU", porque foram as panelas distribuídas como parte de um esquema de economia de energia. Também tomei uma preciosa dose de uísque com gelo (250 calorias), tudo isso acompanhado por arroz e feijão que sobraram do dia anterior. Por necessidade, servi apenas porções pequenas. Do refrigerador, tirei minha proteína: um dos quatro filés de frango empanados a que tinha direito para o mês. Acendi o fogão com cuidado, e fritei o filé até que sua crosta ficasse escura, ainda que ao servi-lo o interior estivesse frio e úmido. Não era carne de frango. Não era nem mesmo a "mistura de frango" que a embalagem dizia ser. Os principais ingredientes mencionados eram pasta de soja e trigo. Uma inspeção mais cuidadosa revelou que o teor de carne de frango era zero. Eu estava comendo uma esponja empanada, com apenas 180 calorias. Ah, meu reino por um McNugget. Por fim, cruzei a barreira das duas mil calorias pela primeira vez em 10 dias --por pouco. Descontando os muitos quilômetros de caminhadas e alguns minutos de dança, retornei à familiar referência das 1,7 mil calorias. Mas pelo menos estava de barriga cheia quando fui dormir. Ou era o que eu imaginava. Depois de duas horas de sono, acordei com insônia, a companheira da fome. Fiquei na cama da uma da manhã até o alvorecer, cinco horas de briga contra mosquitos e de leitura de Victor Hugo e Alexandre Dumas. Ainda assim, não é possível comparar minha situação a uma fome real. Como aponta Hugo: "Por trás da arte de viver com muito pouco, está a arte de viver com nada". Mergulhei nos milhares de páginas da França do século 19, em dois escritores que descrevem revoluções, marchas forçadas e fome real. "Quando a pessoa não comeu", escreve Hugo, "a sensação é muito estranha... Ela rumina aquela coisa inexprimível, a amargura. Uma coisa horrível, QUE ENVOLVE DIAS SEM PÃO E NOITES SEM SONO". E assim chegou a aurora, minha 12ª. TELEFONEMA Repentinamente, sorte e felicidade. Na noite seguinte, eu estava sentado à porta do meu edifício, observando a rua, quando meu vizinho se aproximou vindo do beco, trazendo um telefone. Um telefonema. Para mim. Era a amiga de um amigo, em visita a Cuba com seu namorado. Os dois eram claramente norte-americanos, do tipo "que bom que nós existimos", e eu imediatamente farejei a possibilidade de uma refeição grátis. O casal havia chegado a Havana e, porque não conheciam a cidade e nem falavam espanhol, me convidaram para jantar. Saímos a passeio pelas ruas de Vedado, e eu evitei cuidadosamente pedir comida, tentando parecer estóico. Jantamos em um restaurante para turistas, e pela primeira vez desde minha chegada comi carne de porco. Na tarde seguinte, voltamos a nos encontrar. Eu os levei a uma cerimônia de iniciação na Santería, uma hora de tambores e calor sufocante em um pequeno apartamento, durante a qual pelo menos três pessoas foram possuídas por espíritos. Depois, recebi novo convite para jantar em um restaurante elegante. Mais carne de porco! Os cubanos preparam lechón, um inocente leitãozinho, marinado em um molho de alho e laranjas azedas, e cozinham o prato por muitas horas; a carne fica macia a ponto de poder ser comida com a colher. Para acompanhar a reluzente proteína e gordura, serviram-nos arroz com feijão, exatamente aquilo que eu comia duas vezes por dia em meu apartamento. A porção servida equivalia a quatro refeições para mim, expliquei. "Desculpe", disse o namorado enquanto se servia, "mas vou comer sua quinta-feira". Como as centenas de cubanos a quem servi de anfitrião ao longo dos anos, tive de trabalhar pela minha comida. Falei sobre a história dos cultos afrocubanos. Sobre a história de edifícios que nunca visto. Sobre a ilha vista pelos olhos de Capone, Lansky, Churchill e Hemingway. Fiz piadas sobre o socialismo. Discorri sobre a arte do racionamento. O segredo do daiquiri. Nas duas noites, comi carne de porco, acompanhada por arroz e feijão e um par de coquetéis. A despeito da carne, não registrei grande avanço nas calorias consumidas --apenas 2,1 mil ao dia, ante minhas 1,7 mil usuais. Mas as refeições ajudaram meu bem estar psicológico. Eu havia conseguido uma folga, como que um feriado, depois da ansiedade causada pela redução de meu estoque de alimentos básicos. LIXO Na manhã seguinte, encontrei uma mulher vasculhando meu lixo. Ela estava em busca de garrafas de vidro ou qualquer outra coisa de valor. Dei-lhe minhas calças de zíper enguiçado. Ela tinha 84 anos, a idade de minha mãe, e vivia com uma aposentadoria de 212 pesos ao mês, ou pouco mais de US$ 8. Vasculhava latas de lixo em busca de produtos aproveitáveis --para fúria de minha faxineira, que considerava ter direito ao conteúdo das latas- e trabalhava como colera, ou profissional de espera em filas, para cinco famílias moradoras do quarteirão. Ela levava suas cadernetas de racionamento à bodega, retirava e entregava os mantimentos a elas, e por esse trabalho recebia cerca de 133 pesos. Estava usando uma bombinha de asma que custava 20 pesos, ou cerca de 75 centavos de dólar, mas apenas a primeira dose era comprada a esse preço; se a pessoa precisasse de mais de uma ao mês, teria de recorrer ao mercado negro, pagando alguns dólares por unidade. PARA AGRADECER PELAS MINHAS CALÇAS, ELA INFORMOU QUE A PADARIA "LIVRE" TINHA ESTOQUE. ESTAVA FALANDO DA PADARIA NÃO RACIONADA, ONDE QUALQUER PESSOA ESTÁ AUTORIZADA A COMPRAR PÃO. O PREÇO É QUATRO VEZES MAIS ALTO QUE O DAS PADARIAS RACIONADAS, MAS HÁ MUITO MAIS PÃO. Apanhei uma sacola plástica e caminhei oito quarteirões (passando por três padarias racionadas que estavam fechadas) para comprar um pão inteiro por 10 pesos. No meu caminho de volta, uma mulher que ia na direção oposta perguntou: "A padaria tem pão?", e acelerou o passo, diante da resposta. Depois, quando passei por dois homens que jogavam xadrez sob uma figueira, um deles fez a mesma pergunta. "SIM, HÁ PÃO", respondi. Os dois guardaram as peças, enrolaram o tabuleiro e se foram na direção da padaria. Meu café da manhã havia sido uma pequena e dura banana da terra, comprada de um homem em um beco. Com café e açúcar, ela representava menos de 200 calorias. O almoço consistiu de um ovo acompanhado por duas fatias do pão que eu tinha comprado, ou seja, mais 380 calorias. Eu tinha US$ 3 na carteira, e mais 17 dias para sobreviver. Um erro catastrófico. Andei a tarde toda, e o teor de açúcar no meu sangue estava baixo. QUANDO PASSEI POR UM BECO CURTO NO QUAL HAVIA UM CARTAZ COM A PALAVRA "PIZZA", PAREI E PEDI UMA. A PIZZA BÁSICA --UM DISCO DE 15 CENTÍMETROS DE MASSA TENUAMENTE RECOBERTO DE KETCHUP E UM POUQUINHO DE QUEIJO- CUSTA 10 PESOS, MAS CEDI A UM IMPULSO E PEDI UMA ESPECIAL, COM CHORIZO. ASSIM, MEU LANCHE CUSTARIA 15 PESOS. NO MEU APARTAMENTO, COLOQUEI A PIZZA NA MESA E A CONTEMPLEI, HORRORIZADO. OS 15 PESOS EQUIVALIAM A HORRÍVEIS US$ 0,60, E ESTOURARIAM MEU ORÇAMENTO. Pelo mesmo montante, eu poderia ter comprado quilos de arroz. Contemplando a minúscula pizza, menor que uma fatia de pizza norte-americana, comecei a tremer e tive de me sentar. De repente, comecei a chorar. Por bons 10 minutos, solucei e me amaldiçoei. Imbecil! Tolo! Idiota! TENSÃO Eu havia gasto um quinto do dinheiro que me restava por impulso, e agora só tinha 64 pesos para viver pelos próximos 17 dias. O que me aconteceria? O que eu comeria quando meus feijões, cujo estoque já estava baixo, acabassem? E se eu cometesse outro erro? E se fosse roubado? Como chegaria ao aeroporto no último dia se não tivesse nem mesmo alguns centavos para pagar o ônibus? Chorar libera não só tensão e medo como endorfinas. A pizza e eu esfriamos juntos. Comi com cuidado, usando garfo e faca, e bebendo água gelada. A "refeição" durou menos de dois minutos. Foi o ponto mais baixo do meu mês. Algum tempo depois, bateram à minha porta. A filha de um dos vizinhos estava do lado de fora. "Patri!", ela gritou. "Patri!" Abri a porta e ela me entregou uma caixa de sapatos. Era pesada, e estava envolta em fita adesiva. Um visitante havia passado por lá --OUTRO NORTE-AMERICANO QUE ESTAVA EM VISITA A CUBA-, e quando a abri encontrei um bilhete da minha mulher e do meu filho pequeno, e três dúzias de biscoitos de chá feitos em casa. Comi 10 deles. Da emboscada à fuga. Das lágrimas à paz. Da danação à alegria. Racionei o restante dos biscoitos: cinco ao dia até que o estoque se reduzisse, e depois dois ao dia; por fim, desmontei a caixa com uma faca e comi as migalhas que encontrei nos cantos. ESPELHO Uma vez por dia, eu cedia à vaidade e me olhava no espelho sem camisa, vendo um homem que não contemplava há 15 anos. Eu havia perdido primeiro dois, depois três, por fim quatro quilos. Mas estômago e mente se ajustaram com facilidade assustadora. Minha primeira semana havia sido dolorosa e acompanhada por uma fome mortal. A segunda, dolorosa e apenas moderadamente faminta. Agora, na terceira, ainda que estivesse comendo menos que nunca, me sentia tranquilo, tanto física quanto mentalmente. O dia havia sido o pior da viagem até aquele momento, com apenas 1,2 mil calorias consumidas, o equivalente ao que os prisioneiros norte-americanos recebiam dos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. Voltei à casa dos meus amigos ladrões de cimento e, depois de uma longa espera, a mulher me cozinhou um jantar generoso, rolando de rir da minha "EXPERIÊNCIA". Ela fritou (em óleo roubado de uma escola) uma porção de carne de frango moída (comprada de um amigo que a roubara), e serviu com arroz "FEIO" da ração e uma pequena beterraba. Depois da refeição, ela até me fez gemada, mas em porção cubana --um golinho, em uma xícara pequena de café. Também comi algumas colheradas de papaia (um peso a porção, em um mercado barato que ela recomendou), cozido com xarope de açúcar. "É impossível", ela disse, sobre minha tentativa de ser oficialmente cubano. Para sobreviver, todo mundo precisa de "algo extra", alguma renda excluída do sistema. O marido dela alugava um quarto para um turista sexual norueguês. A vizinha vendia almoços a trabalhadores de uma empresa cujo refeitório fora fechado recentemente. A mãe dela caminhava pelas ruas com uma garrafa térmica e xícara, vendendo cafezinhos. Uma vizinha na rua ao lado roubava óleo de cozinha e revendia por 20 pesos a garrafa de meio litro. Outra vizinha roubava carne de frango e a vendia por 33 pesos o quilo. ("BOA QUALIDADE, PREÇO MUITO BOM, VOCÊ DEVIA COMPRAR", ELA ACONSELHOU.) A refeição que ela serviu foi a única que comi naquela dia, e as calorias consumidas foram compensadas por uma espantosa caminhada não através de Havana mas em torno da cidade, um circuito extenso pelas ruas carcomidas, passando por grandes hotéis, casas encardidas, pessoas dormindo sem teto e sentadas em caixotes, sem descanso, as horas da manhã, tarde e noitinha girando, pelas largas avenidas e becos estreitos, passando por Plaza, Vedado, Centro, Velha Havana e chegando a Cerro antes de voltar a Plaza de novo, três, seis, 10, 13 quilômetros, passando pela estação rodoviária, estádio de futebol, os sapatos furados de tanto andar, até que voltei para dormir. Meus pés estavam doloridos. Mas meu estômago não tinha queixas. Eu costumava dizer que, em Cuba, 10% de tudo era roubado, para revenda ou reaproveitamento. Agora creio que a proporção real seja de 50%. O crime é o sistema. Na calçada diante da minha loja de produtos racionados, um dia, vi um adolescente com cabelo cortado em estilo punk, sentado em seu reluzente Mitsubishi Lancer, de motor ligado, e brincando com o que achei ser um iPhone. "Não é um iPhone", ele me corrigiu. "É um iPod Touch". O aparelho é vendido por US$ 200, ou 5,3 mil pesos. Algumas pessoas têm dinheiro, mesmo aqui. A única certeza é a de que não ganham esse dinheiro de nenhuma maneira legítima. Caminhei até o amplo hotel Riviera, cujo salão de jogos de azar foi fechado devido à nacionalização apenas um ano depois de inaugurado. (O proprietário, Meyer Lanski, disse, famosamente, que "tive azar nos dados".) PESEI-ME NA BALANÇA DA ACADEMIA DE GINÁSTICA: 90 QUILOS. EM 18 DIAS, EU HAVIA PERDIDO QUASE CINCO QUILOS, UM RITMO DE REDUÇÃO DE PESO QUE TERIA RESULTADO EM HOSPITALIZAÇÃO NOS ESTADOS UNIDOS. A caminho de casa, uma mulher perguntou onde passava o ônibus P2. Atrapalhei-me para responder. "Ah, achei que você fosse cubano", ela disse. Mude de peso, mude de nacionalidade. Ri de seu engano e continuei andando, mas não demorou um minuto para que ela me seguisse. "Ei, me leve para almoçar", ela disse. "Onde você quiser". Fiz que não com a cabeça. "Almoço", ela disse, enquanto eu me afastava. "Jantar. Como preferir". Em casa, abri a geladeira e contei os cinco ovos que me restavam. Como a mulher em busca do P2, eu havia me tornado direto. Caminhei três quilômetros até Cerro, um bairro perigoso. Passei por um beco no qual restos enferrujados de caminhões repousavam, por um estádio esportivo derruído, por um parque de vegetação descuidada, por um bosque, e cheguei à porta de entrada do Ministério do Interior. É o famoso edifício com uma estátua gigante de Che Guevara. Dois soldados de boinas vermelhas estavam de guarda. O edifício do Minint costuma ser fotografado o tempo todo, devido à escultura de Che que o tornou famoso, mas ninguém quer entrar. Ignorei os guardas e continuei caminhando pelo asfalto rachado da imensa Plaza da Revolución. Do lado oposto, caminhando com cuidado, passei pela entrada de um edifício baixo mas colossal, posicionado ao final de uma larga esplanada. Era o Conselho de Estado, o núcleo do sistema revolucionário; nele, Raúl Castro comanda o trabalho dos principais funcionários cubanos. Soldados das forças especiais armados de pistolas e cassetetes protegem a entrada; o governo se sente seguro a ponto de ter apenas um par de pistolas me separando de Raúl. Caminhando a esmo, e ocasionalmente em círculos, passei por Cerro e outros bairros até encontrar a casa de Oswaldo Payá, um dos mais importantes dissidentes de Cuba. Falamos de política, cultura, neoliberalismo e direitos humanos, mas o que me chamou a atenção foi sua situação econômica pessoal. "MEU SALÁRIO É DE 495 PESOS POR MÊS", DISSE. "ISSO EQUIVALE A CERCA DE 10 REFEIÇÕES PARA QUATRO OU CINCO PESSOAS. OS SALÁRIOS NÃO COBREM UM QUINTO DE NOSSAS NECESSIDADES ALIMENTÍCIAS. UM SANDUÍCHE DE 10 PESOS E UM REFRIGERANTE DE UM PESO CONSOMEM METADE DO MEU SALÁRIO DIÁRIO. SE SOMARMOS A DESPESA DE IR AO TRABALHO E VOLTAR PARA CASA, E OS MEUS TRÊS FILHOS QUE ESTÃO NA ESCOLA, PRECISAMOS DE 10 A 12 PESOS POR DIA PARA TRANSPORTE --OU SEJA, 50% A 60% DA RENDA FAMILIAR TOTAL". Ele sobrevive graças a um irmão que vive na Espanha e envia dinheiro. "O paradoxo é que os trabalhadores são as pessoas mais pobres de Cuba. Vivemos todos pior que o sujeito que vende cachorro quente no posto de gasolina da esquina" (uma empresa autorizada a vender em moeda forte). A maioria das pessoas não tem CUC, e voltam para casa famintas a cada noite. "Não digo que tudo em Cuba seja ruim, ou terrível. Temos esquemas de distribuição para alimentar os pobres, para conceder benefícios. Mas essa é outra forma de dominação, mantendo as pessoas pobres para sempre. Se minhas mãos estivessem livres, eu abriria um negócio e me sustentaria sozinho". Perguntei-lhe onde alguém poderia conseguir dinheiro para um iPod Touch ou qualquer das outras engenhocas, produtos de luxo, carros moderno, aparelhos de som e roupas elegantes que são cada vez mais comuns em Cuba. "Viver de salário equivale a ser pobre", disse. "TODOS PRECISAM ROUBAR O SISTEMA PARA SOBREVIVER. É A CORRUPÇÃO TOLERADA DA SOBREVIVÊNCIA". Uma minúscula classe média emergiu: "Empresários, quase todos antigos funcionários do governo, pessoas que operam restaurantes. São todos ligados ao regime. A maioria ex-militares ou funcionários do Ministério do Exterior, e assim por diante. Pessoas bem conectadas. Estão dentro do sistema. São intocáveis". E existe um terceiro grupo, incrivelmente pequeno e "indescritivelmente" próspero, dentro da liderança, "com casas grandes, viagens ao exterior, tudo. O povo cubano sabe que esse grupo existe, mas ninguém jamais os vê, não há como". Ao longo de uma hora de conversa, sua mulher, Ofelia, empregada doméstica e também ativista dos direitos humanos, me serviu um copo de suco de abacaxi. Quando o assunto estava se esgotando, Oswaldo insistiu que eu voltasse para uma refeição e um mojito, "QUANDO QUISER". Não saí da cadeira. A conversa sobre futuras refeições me deixou com água na boca. Ofelia percebeu, e logo ouvi o ruído de fritura na cozinha. Comemos sopa de tomate, arroz e lentilhas amarelas. Ela serviu uma porção de proteína, uma mistura cinzenta que pensei ser picadillo do governo porque tinha gosto de soja e restos de alguma coisa que um dia tivesse sido um animal. Mas Ofelia tirou a embalagem da cesta de lixo. Era carne de peru "separada mecanicamente" produzida pela Cargill, dos Estados Unidos, parte das centenas de milhões de dólares em produtos agrícolas vendidos a Cuba a cada ano sob uma cláusula de isenção do embargo. Era quase intragável, mesmo com a fome que eu sentia, mas Ofelia tinha um sorriso largo nos lábios. "Muito melhor que o peru que comprávamos antes", disse. Quando eu estava saindo, Oswaldo tentou me dar 10 pesos. "Qualquer cubano faria isso por você", disse. Ele me aconselhou a gastar o dinheiro em comida, mas recusei, devolvendo as notas. Não podia aceitar dinheiro de uma fonte, ainda que meus escrúpulos não se estendessem a recusar uma refeição. Ele insistiu. No final, para evitar a caminhada de volta à minha casa, aceitei uma moeda de um peso para o ônibus. Oswaldo caminhou comigo pelas ruas de seu bairro perigoso, repletas de adolescentes que nos encaravam, e me levou ao ponto de ônibus. "USE CALÇAS COMPRIDAS", FOI SEU CONSELHO FINAL. SÓ TURISTAS CIRCULAM DE SHORTS. Eu vinha há mais de uma semana me esquivando às atenções de uma jovem que caminhava pelas ruas próximas de meu apartamento. Era um exemplo clássico da economia cubana em ação: calças justíssimas, correntes douradas, sombra azul nos olhos, sandálias com salto plataforma e unhas postiças de acrílico pintadas nas cores da bandeira cubana. "Psst", ela dizia ao passar, chamando minha atenção para esses atributos. Eu muitas vezes costumava me sentar na escadaria do meu prédio, a fim de aliviar a sensação de estar aprisionado no pequeno apartamento. Ela me olhava pelo portão de ferro, ao passar, e me chamava. Psst. Eu resistia ao apelo. Mas a jovem, como muitas prostitutas cubanas com quem conversei, era uma mulher charmosa e inteligente lutando para sobreviver. Conversamos uma vez, e voltamos a fazê-lo dias mais tarde. Nossa terceira conversa foi longa. Ela tentava o tempo todo ser convidada a entrar no meu apartamento --eu tinha fogo para seu cigarro? Um cafezinho? Uma cerveja ou refrigerante?- e eu nem cedia e nem recusava, porque as histórias dela me divertiam. Em dado momento, o som de um celular surgiu de seu decote. Ela atendeu, e travou uma conversação tendenciosa, em inglês. Quando desligou, ela disse: "Ele quer comer meu rabo". Cogerme em el culo. Os cubanos, especialmente as prostitutas, não fazem rodeios quanto a sexo. Ou raça. "Os negros sempre querem sexo anal", ela continuou. "Não gosto de negros, mesmo que me considere negra, e minha irmã é negra, mas acho que os negros cheiram mal. O sujeito tem muito dinheiro. É um homem importante nas ilhas Cayman, e rico de verdade. Ele me ofereceu US$ 150, e eu recusei. Agora disse que quer me pagar US$ 300 só por um jantar". "Duvido muito", eu disse. "Pois é. Sempre digo a ele para ligar para minha prima. Ela adora negros". Todas as nossas conversas tanto começavam quanto se encerravam com uma proposta. Porque, ao longo de uma semana, eu havia recusado repetidamente os seus convites, ela disse:"EU ACHEI QUE VOCÊ FOSSE PATO". O quê? "Você sabe, maricón. Um gay. Homossexual". Ela é enfermeira, tem 24 anos, vive em Holguín. Para conseguir mais tempo de férias, trabalha turnos de 12 horas, e depois, a cada quatro ou seis meses, vai a Havana para um longo intervalo "no qual me dedico a isso", disse. Em um raro momento de eufemismo, se definiu como dama de acompañamiento. "A maioria das meninas tem cafetões, mas eu não; preciso me defender sozinha". Além do celular, seu decote oculta uma pequena faca serrilhada, cuja lâmina ela estendeu e exibiu. "Você sabe por que fazemos isso", disse, "não é? É a única maneira de sobreviver. Tenho uma filha e a amo muito. É uma menina preciosa. Sinto muito sua falta. É por ela que faço isso. Que tal me dar US$ 100 e a gente sobe agora?" (Ela mais tarde me ofereceria o "preço cubano" de US$ 50.) Eu disse a ela que não tinha dinheiro. Expliquei o que estava fazendo. A ração. O salário. Os cinco quilos que eu tinha perdido. "Não tenho nem um peso", disse. Ela pediu uma caneta, anotou seu telefone e me entregou o papel. Depois, tirou de um dos bolsos minúsculos de sua calça justa uma moeda de um peso, e me entregou. "Para você me telefonar", disse. FOI MAIS UM DIA TERRÍVEL NO QUE TANGE À COMIDA, MEU PIOR ATÉ AQUELE MOMENTO. DO ALVORECER À MEIA-NOITE, COMI ARROZ, FEIJÃO E AÇÚCAR EM VALOR NUTRITIVO DE POUCO MAIS DE MIL CALORIAS. Acordei às três da manhã seguinte e terminei o arroz. Só me restava um pouco de feijão, duas batatas doces, algumas bananas da terra mirradas, três ovos e um quarto de repolho. Faltavam nove dias. Fui à loja de produtos racionados, procurei Jesús e comprei café, meio quilo de arroz e um pouco de pão --tudo a preços cubanos, um total de 14 pesos, ou cerca de US$ 0,60. Com isso meu dinheiro acabou. Mas essas sobras de comida, a generosidade de diversos cubanos e meu estômago contraído para o tamanho de uma noz garantiram que fosse o bastante. Eu sabia que cumpriria meu plano até o fim. No dia seguinte, fui a pé até a casa de Elizardo Sánchez, o ativista dos direitos humanos. Setenta minutos de caminhada para ir e 70 para voltar. "Tudo está bem, agora", eu lhe disse, delirando com a falta de açúcar no sangue. "ATÉ PROSTITUTAS ESTÃO ME DANDO DINHEIRO". Passei uma hora em sua casa. Ele me ofereceu um copo de água. Por fim chegou o grande dia da fuga. Na metade de fevereiro, caminhei pela última vez até o Riviera e me pesei na academia. Estava mais de cinco quilos abaixo do peso que tinha ao chegar. Mais de cinco quilos perdidos em 30 dias. Eu tinha consumido 40 mil calorias a menos do que estava acostumado. A esse ritmo, eu estaria magro como um cubano por volta do segundo trimestre; e morto antes do final do ano. Concluí a estadia com algumas refeições minúsculas --acabei com o arroz feio, comi a última batata doce e um quarto de repolho. No dia anterior à partida, recorri à reserva para emergências e comi os palitos de gergelim do avião (60 calorias), acompanhados pela lata de suco de frutas contrabandeada das Bahamas (180). O sabor do líquido vermelho foi um choque: amargo por conta do ácido ascórbico e repleto de açúcar, a fim de imitar o sabor de um suco real. Foi como beber plástico. FIM Meus gastos totais com comida foram de US$ 15,08 ao longo do mês. Ao final, eu tinha lido nove livros, dois dos quais com mais de mil páginas, e escrito boa parte deste artigo. Vivi com o salário de um intelectual cubano e, de fato, sempre escrevo melhor, ou ao menos mais rápido, se estou sem grana. Minha última manhã: sem desjejum, para complementar o jantar que não tive na noite anterior. Usei a moeda que ganhei de uma prostituta para apanhar um ônibus até perto do aeroporto. Tive de caminhar os 45 minutos finais até o terminal; quase desmaiei no caminho. Houve um momento tragicômico, no qual homens uniformizados me tiraram da fila do detector de metais porque um agente da imigração achou que eu tinha excedido os 30 dias de permanência do meu visto. Foi preciso três pessoas, contando repetidamente nos dedos, para provar que aquele era o 30º dia. Jantei e almocei nas Bahamas e engordei quase dois quilos. De volta aos EUA, ganhei mais três quilos antes que o mês acabasse. Estava de volta à minha nacionalidade --e ao meu peso.