terça-feira, 2 de maio de 2017

BELCHIOR FEZ UM ESFORÇO IMENSO PARA SER O DIRETOR, ESTRELA E PROTAGONISTA DE SEU PRÓPRIO FILME.


Paulo Moreira Leite

Em 1983, durante um depoimento de 50 minutos ao extinto Vox Populi, na TV Cultura, uma espectadora perguntou a Antonio Belchior qual a importância do sucesso profissional em sua vida. "SUCESSO É BRILHANTE, É BONITO," disse, antes de acrescentar: "A PUBLICIDADE DE MEU  NOME INTERESSA POUCO. O QUE ME INTERESSA É A GLÓRIA, O RECONHECIMENTO DE TER FEITO UMA COISA QUE, COMO ARTISTA E COMO CIDADÃO, JULGUEI SIGNIFICATIVA DE FAZER.".

Morto neste domingo, aos 70 anos de idade, a existência reclusa de Belchior nos últimos anos de vida  alimentou sérias dúvidas sobre a permanência de seu nome como garantia de vendas num mercado musical cada vez mais dominado por esquemas comerciais pesados. Não há dúvida, porém, de que alcançou a glória – no sentido mais nobre que essa palavra possui – como demonstram as homenagens recebidas, muito além da hipocrisia quase sempre obrigatória nessas ocasiões.

A CULTURA BRASILEIRA TEM UMA DÍVIDA IMENSA com a coerência de Belchior e sua capacidade para apresentar as próprias ideias de forma atraente e compreensível. Era porta-voz de um pensamento relativamente raro no país – libertário no sentido anarquista da palavra, de rejeição radical a toda forma de opressão e resistência a todo tipo de autoridade, mesmo consentida. Na música "Como o Diabo Gosta" chegou a escrever ("NUNCA FAZER O QUE O MESTRE MANDAR, SEMPRE DESOBEDECER") afirmando uma noção que iria repetir outras vezes.

Poeta que empregava a música como um suporte para versos que sempre foram a prioridade assumida de suas canções, construiu uma obra sofisticada e literariamente complexa. Engajado em diversas campanhas democráticas, mantinha o equilíbrio. Sem nunca ter sido panfletário, jamais escondeu uma escolha política clara entre as opções enfrentadas pela história do país ao longo dos últimos 50 anos, condição que foi bem traduzida por pichações surgidas nos muros de grandes cidades brasileiras após sua morte:  "Fora Temer. Fica Belchior."

Seminarista na adolescência, tinha um bom conhecimento de latim, o que lhe permitia um manejo erudito da língua portuguesa. Acumulou uma cultura literária acima da média, inclusive de autores do período romântico, brasileiros e portugueses, além de clássicos franceses. Também era um leitor frequente da Bíblia e de obras religiosas, em geral. Admirador de Antonio Conselheiro, o beato que liderou a revolta de Canudos no final do século XIX, exibia um traço místico no comportamento, fator que boa parte dos amigos mais antigos associam ao desaparecimento – sem nenhuma explicação plausível até aqui -- ocorrido na última década.  

O arquiteto e compositor Fausto Nilo, um dos primeiros amigos que Belchior fez em Fortaleza depois que a família saiu de Sobral, no interior do Ceará, para se estabelecer na capital cearense, recorda um episódio significativo. Aluno do primeiro ano do curso científico, de um dia para o outro Belchior sumiu da vista de todos por um longo período sem mandar notícias. "DE REPENTE, QUANDO EU ESTAVA ANDANDO PELA CIDADE, ELE BATEU NAS MINHAS COSTAS PARA CONTAR O QUE ESTAVA FAZENDO," contou Fausto Nilo. "Vestia trajes de noviço franciscano e, antes de se despedir, me deu conselhos para seguir na vida."

Estudante de Medicina, que frequentou até o quarto ano, Belchior considerava-se um herdeiro leal das ideias de 1968, o ano que transformou corações e mentes de sua geração. "Ele nunca foi militante mas frequentava o movimento estudantil," recorda Fausto Nilo, referindo-se a um universo político que incluiu lutas políticas importantes da juventude no mundo inteiro – inclusive no Brasil sob a ditadura militar – e mudanças de comportamento em vários níveis da vida cotidiana.

José Genoíno, a principal liderança entre os estudantes da Universidade Federal do Ceará, teve um percurso político comum a vários colegas do país inteiro.  Estudante de Direito, quadro clandestino do PC do B, participou da guerrilha do Araguaia. Saiu de lá para a tortura e cinco anos de prisão. Ao deixar a cadeia, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores. Em 1998, quando Genoíno disputava o terceiro mandato como parlamentar, Belchior participou de um show em benefício de sua campanha.
O sucesso de determinadas músicas chegou a tal ponto que ele só precisava pronunciar a primeira estrofe do primeiro verso -- deixando que o público cantasse até o final, sem erro. "Só preciso cantar 'Sou apenas um rapaz latino-americano'. Depois o publico faz o resto," costumava contar aos amigos, divertido. Nas canções de grande empatia, o bis não era suficiente. Precisava cantar três vezes.  

Mesmo mantendo um convívio regular e caloroso com os amigos da faculdade, seu caminho pela política seguiu um roteiro próprio. Em 1976, ano em que a violência da ditadura produziu a morte do operário Manoel Fiel Filho, em janeiro, e a Chacina da Lapa, em dezembro, que contabilizou três execuções no local, além de outros cinco casos de tortura, Belchior escreveu "COMO NOSSOS PAIS," obra prima com mensagens para o conjunto do país, inclusive para si próprio.

Sublinhando o valor supremo da vida humana num sistema onde massacres eram parte da paisagem, diz que "VIVER É MELHOR DO QUE SONHAR" e reconhece que "QUALQUER CANTO É MENOR DO QUE A VIDA DE QUALQUER PESSOA."

Num país onde "HÁ PERIGO NA ESQUINA", "ELES VENCERAM E O SINAL ESTÁ FECHADO PARA NÓS, QUE SOMOS JOVENS."  Referindo-se aos modismos mentais da época, acusa: "QUEM ME DEU A IDEIA DE UMA NOVA CONSCIÊNCIA ESTÁ EM CASA, GUARDADO POR DEUS, CONTANDO O VIL METAL."

É um imenso pessimismo, coerente com a situação  no início da década de 1970. Mas não é uma derrota absoluta. É preciso querer enxergar a mudança: quem  ama o passado" (...) "não vê que o novo sempre vem."    

Em 1996, numa entrevista a jornalista Claudia Nocchi,  Belchior  colocou-se como devedor de "uma corrente de pensamentos que nasceu nos sessenta." O radicalismo residia aí. Falou de uma geração que quis " MUDAR O MUNDO, SE DESESPEROU, PERDEU, SE DECEPCIONOU".  A seguir reforçou: "é só o que me interessa." Quando a jornalista quis saber se ele não se arrependia por ter abandonado o curso de Medicina, decisão que provocou uma compreensível reviravolta na casa dos país, Belchior deu uma resposta figurada que também pode ser aplicada a outros temas: "neste cinema você desempenha o papel que lhe cabe."


Numa  época em que a vida privada é prato de consumo  e ajuda a reproduzir o mundo como  mercadoria, Belchior fazia um esforço imenso para ser o diretor, estrela e protagonista de seu próprio filme. Protegendo a vida privada com cuidados extremos, portava-se como trovadores à moda antiga, onde a pessoa real era confundida com lendas construídas a sua volta. Uma vez, disse claramente que sua pessoa era "MENOS IMPORTANTE DO QUE O PERSONAGEM QUE, ACIDENTALMENTE, PODE SER EU." Em outra oportunidade, falou de uma "espécie de biografia de um personagem de minha geração com o qual me identifico." Sempre em ambiente de certo mistério, jamais permitiu que seus casamentos, seus filhos, os hábitos de consumo, se tornassem assunto de domínio público no parque de diversos com homens e mulheres da indústria cultural. Estes cuidados ajudam a entender como um rosto conhecido e uma voz inconfundível puderam desaparecer de uma vez por todas por tanto tempo, levando consigo as razões para um gesto tão extremo.

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